 |
EDITORIAL |
O leitor que gentilmente entra nas páginas virtuais da Fênix – Revista de História e Estudos Culturais já deverá ter percebido como a nossa publicação é um espaço que abriga a explosão dos trabalhos sobre o mundo da cultura. E o fato de não ser impressa a revista é uma vantagem: afinal, do contrário, seria desgastante lidar com uma multiplicidade que, admitamos, tanto nos excita quanto nos desconcerta.
Com efeito, esse sentimento de excitação-desconforto, alimentado, por vezes, pela crescente e sempre positiva proliferação de revistas eletrônicas com formato acadêmico, tem encontrado caminhos diversos para se exteriorizar e, felizmente, alguns deles com resultados positivos. Deste ponto de vista, vale destacar a recente iniciativa da CAPES em criar um competente indexador de periódicos eletrônicos de livre acesso, a partir de rigorosos critérios de qualidade [http://acessolivre.capes.gov.br]. Seu objetivo é, em suma, reunir e tornar público o melhor da produção acadêmica brasileira e internacional em todas as áreas do conhecimento.
Para nossa felicidade, a Fênix – Revista de História e Estudos Culturais foi incluída pela CAPES nesse rol de publicações, o que se configura como um passo importante no caminho para a sua consolidação como um veículo de divulgação acadêmica ágil e de qualidade, cujo acesso é livre, universal e gratuito.
Entretanto, devemos lembrar que nada disso teria sido possível não fosse o trabalho incansável dos Conselhos Editorial e Consultivo, do empenho da equipe técnica e, sobretudo, dos excelentes artigos que temos recebido.
|
Um bom indicador dessa excelência é o número que ora estamos lançando (Vol. 3, Ano III, nº 1 – JAN/FEV/MAR-2006). Acolhendo contribuições de diferentes lugares do país, nele identificamos alguns eixos da produção historiográfica brasileira atual. Primeiramente, estão reunidos instigantes estudos sobre o período medieval. Às eruditas contribuições de Paulo Roberto Soares de Deus e Maria Izabel B. Morais Oliveira sobre o Mapa-Múndi de Hereford e o poder real na França de Carlos V somam-se as entrevistas feitas por Johnni Langer e Luciana de Campos com os medievalistas Hilário Franco Jr., José Rivair Macedo e João Lupi. Em seguida, temos os trabalhos de Edwar de Alencar Castelo Branco e Beatriz de Moraes Vieira que abrem vereda diversa, dando ao leitor a oportunidade de apreciar dois estudos sobre a experiência da poesia brasileira, ora iluminando a obra de Torquato Neto, ora os poemas de Chico Alvim, Cacaso e Chacal. E a leitura do artigo de Ailton Pereira Morila, sobre a música popular em São Paulo na passagem do século XIX ao XX, mostrará como foram cantadas as condições de vida e o cotidiano da cidade, sob o prisma dos segmentos populares. Já o artigo de Alcides Freire Ramos, que se volta para o confronto dos intelectuais de esquerda com a ditadura militar, certamente ajudará o leitor a compor um quadro sobre o período e o tema que, se não se torna um mosaico desprovido de cor própria, jamais se enquadra também em uma grade conceitual previamente estabelecida. Fechando esse bloco, vale conferir a Resenha de Rodrigo de Freitas Costa e Eliane Alves Leal do provocativo livro organizado por Daniel Caetano (Cinema Brasileiro 1995-2005: ensaios sobre uma década. Rio de Janeiro: Contracampo-Azougue Ed., 2005).

|
E como alguém já disse, o hábito é mais forte do que a natureza. Este velho adágio torna-se positivo quando é saudável o hábito. Afinal, novamente temos o prazer de apresentar ao público mais um dossiê. Desta feita, a professora Sheila Schvartzman organizou um belo e coeso conjunto de ensaios sobre cinema e história, escritos por Marcos Corrêa, Luana Chnaiderman de Almeida, Karla Holanda, Miriam de Souza Rossini e Ana Pessoa. A apresentação do próprio dossiê será mais elucidativa, mas antecipo que é estimulante verificar como, no que diz respeito ao cinema, o debate historiográfico especializado combina rigor e abertura: da “retomada” do cinema nacional a um filme fundamental sobre o Holocausto (Shoah, de Claude Lanzmann), passando pelas discussões em torno do cinema de propaganda, do documentário e da obra de Carmen Santos, percebe-se a manutenção de uma característica fundamental dos objetos históricos e dos temas culturais: a sua plasticidade. Se o rigor lhes garante a solidez e a base objetiva da discussão, a inventividade lhes confere comunicabilidade, tornando-os complexos, e, assim, um autêntico e sincero convite para que todos tomem parte da discussão.
Convite que nossa revista faz ao seu leitor e refaz, com muito gosto, pontualmente, a cada trimestre
Pedro Spinola Pereira Caldas
|
Membro do Conselho Editorial
|
|