Vol. 3 Ano III nº 1 - Janeiro/ Fevereiro/ Março de 2006

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  • Dossiê
  • Resenha
O leitor que gentilmente entra nas páginas virtuais da Fênix – Revista de História e Estudos Culturais já deverá ter percebido como a nossa publicação é um espaço que abriga a explosão dos trabalhos sobre o mundo da cultura. E o fato de não ser impressa a revista é uma vantagem: afinal, do contrário, seria desgastante lidar com uma multiplicidade que, admitamos, tanto nos excita quanto nos desconcerta.
 

Com efeito, esse sentimento de excitação-desconforto, alimentado, por vezes, pela crescente e sempre positiva proliferação de revistas eletrônicas com formato acadêmico, tem encontrado caminhos diversos para se exteriorizar e, felizmente, alguns deles com resultados positivos. Deste ponto de vista, vale destacar a recente iniciativa da CAPES em criar um competente indexador de periódicos eletrônicos de livre acesso, a partir de rigorosos critérios de qualidade [http://acessolivre.capes.gov.br]. Seu objetivo é, em suma, reunir e tornar público o melhor da produção acadêmica brasileira e internacional em todas as áreas do conhecimento.

Um bom indicador dessa excelência é o número que ora estamos lançando (Vol. 3, Ano III, nº 1 – JAN/FEV/MAR-2006). Acolhendo contribuições de diferentes lugares do país, nele identificamos alguns eixos da produção historiográfica brasileira atual. Primeiramente, estão reunidos instigantes estudos sobre o período medieval. Às eruditas contribuições de Paulo Roberto Soares de Deus e Maria Izabel B. Morais Oliveira sobre o Mapa-Múndi de Hereford e o poder real na França de Carlos V somam-se as entrevistas feitas por Johnni Langer e Luciana de Campos com os medievalistas Hilário Franco Jr., José Rivair Macedo e João Lupi. Em seguida, temos os trabalhos de Edwar de Alencar Castelo Branco e Beatriz de Moraes Vieira que abrem vereda diversa, dando ao leitor a oportunidade de apreciar dois estudos sobre a experiência da poesia brasileira, ora iluminando a obra de Torquato Neto, ora os poemas de Chico Alvim, Cacaso e Chacal. E a leitura do artigo de Ailton Pereira Morila, sobre a música popular em São Paulo na passagem do século XIX ao XX, mostrará como foram cantadas as condições de vida e o cotidiano da cidade, sob o prisma dos segmentos populares. Já o artigo de Alcides Freire Ramos, que se volta para o confronto dos intelectuais de esquerda com a ditadura militar, certamente ajudará o leitor a compor um quadro sobre o período e o tema que, se não se torna um mosaico desprovido de cor própria, jamais se enquadra também em uma grade conceitual previamente estabelecida. Fechando esse bloco, vale conferir a Resenha de Rodrigo de Freitas Costa e Eliane Alves Leal do provocativo livro organizado por Daniel Caetano (Cinema Brasileiro 1995-2005: ensaios sobre uma década. Rio de Janeiro: Contracampo-Azougue Ed., 2005).

E como alguém já disse, o hábito é mais forte do que a natureza. Este velho adágio torna-se positivo quando é saudável o hábito. Afinal, novamente temos o prazer de apresentar ao público mais um dossiê. Desta feita, a professora Sheila Schvartzman organizou um belo e coeso conjunto de ensaios sobre cinema e história, escritos por Marcos Corrêa, Luana Chnaiderman de Almeida, Karla Holanda, Miriam de Souza Rossini e Ana Pessoa. A apresentação do próprio dossiê será mais elucidativa, mas antecipo que é estimulante verificar como, no que diz respeito ao cinema, o debate historiográfico especializado combina rigor e abertura: da “retomada” do cinema nacional a um filme fundamental sobre o Holocausto (Shoah, de Claude Lanzmann), passando pelas discussões em torno do cinema de propaganda, do documentário e da obra de Carmen Santos, percebe-se a manutenção de uma característica fundamental dos objetos históricos e dos temas culturais: a sua plasticidade. Se o rigor lhes garante a solidez e a base objetiva da discussão, a inventividade lhes confere comunicabilidade, tornando-os complexos, e, assim, um autêntico e sincero convite para que todos tomem parte da discussão.

Convite que nossa revista faz ao seu leitor e refaz, com muito gosto, pontualmente, a cada trimestre .

Pedro Spinola Pereira Caldas
Membro do Conselho Editorial

MITOLOGIA E LITERATURA MEDIEVAL: ENTREVISTAS COM HILÁRIO FRANCO JÚNIOR, JOSÉ RIVAIR MACEDO E JOÃO LUPI

  • Johnni Langer

USOS, AUTORIA E PROCESSO DE CONFECÇÃO DO MAPA-MÚNDI DE HEREFORD, SÉCULO XIII

  • Paulo Roberto Soares de Deus

RESUMO: O mapa de Hereford é o maior mapa-múndi que sobreviveu à Idade Média. Possui 1,59 m de altura por aproximadamente 1,40m de largura. Apresenta uma descrição do mundo muito rica, com cerca de 1.100 legendas – em latim (internas ao mapa) e anglo-normando (externas ao mapa). Foi confeccionado na Inglaterra ao final do século XIII por Ricardo de Haldingham e possuía um uso polivalente (pedagógico, devocional, presente de luxo).

PALAVRAS-CHAVE: Mapa – Medieval – Polivalente

O MILAGRE RÉGIO E O CICLO LEGENDÁRIO EM PROL AO FORTALECIMENTO DO PODER, NO CÍRCULO DE CARLOS V (FRANÇA, 1364-1380)

  • Maria Izabel B. Morais Oliveira

RESUMO: O artigo demonstra o grande empenho de Jean Golein, integrante do círculo de Carlos V, que na França, entre 1364 a 1380, recorre ao milagre régio e às legendas, ou seja, à esfera do sagrado, visando o fortalecimento do poder real.

PALAVRAS-CHAVE: Poder real – Milagre régio/legendas – Sagrado – França – Segunda metade do século XIV

PELOS CANTOS DA CIDADE: MÚSICA POPULAR EM SÃO PAULO NA PASSAGEM DO SÉCULO XIX AO XX

  • Ailton Pereira Morila

RESUMO: O objetivo deste artigo é apresentar algumas canções que percorriam a cidade de São Paulo no final do século XIX e início do XX. Em um ambiente oralizado, a canção torna-se o principal veículo de transmissão cultural, principalmente nas camadas mais baixas da população. Assim, são cantadas as condições de vida, as saudades, as mercadorias, as notícias, enfim o cotidiano da cidade.

PALAVRAS-CHAVE: Canção popular – Cultura popular – Cidade de São Paulo

A CIDADE QUE ME GUARDA: UM ESTUDO HISTÓRICO SOBRE “TRISTERESINA”, A CIDADE SUBJETIVA DE TORQUATO NETO

  • Edwar de Alencar Castelo Branco

RESUMO: Este trabalho reflete sobre a possibilidade histórica de uma cidade invisível, necessariamente subversiva em relação à cidade visível e erigida por palavras. Torquato Neto, o poeta tropicalista d’Os Últimos Dias de Paupéria, é o pré-texto em torno do qual o argumento é organizado. Em face do reconhecimento de que existe uma incongruência entre a cidade visível – expressa no discurso urbanista – e a cidade invisível, resultante em larga medida da forma como os caminhantes, delinquentemente, subvertem a ordem proposta pelos mapas e pelo discurso urbanista, o trabalho toma um nome de autor – Torquato Neto – e, a pretexto de dialogar com seus textos e experimentos com imagens, propõe restaurar Tristeresina, a sua cidade subjetiva.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura brasileira – História e Poesia – Torquato Neto

A ESPIAR O MUNDO... EXPERIÊNCIA HISTÓRICA NA LEITURA POÉTICA DA “GERAÇÃO 1970”

  • Beatriz de Moraes Vieira

RESUMO: Como parte de uma pesquisa acerca da experiência histórica dos anos 1970 no Brasil, tendo a poesia como fonte, este trabalho busca compreender alguns modos como este momento histórico foi percebido e vivido, contribuindo para compor uma leitura do quadro sócio-cultural sob a ditadura militar brasileira. Para tal, são analisados poemas de três poetas – Chico Alvim, Cacaso e Chacal – representativos dessa sensibilidade de época.

PALAVRAS-CHAVE: Poesia brasileira – Experiência histórica – Ditadura/anos 1970

A LUTA CONTRA A DITADURA MILITAR E O PAPEL DOS INTELECTUAIS DE ESQUERDA

  • Alcides Freire Ramos

RESUMO: Entre 1964 e 1970, diversos partidos políticos de esquerda lutaram contra a ditadura militar brasileira. Com efeito, estas organizações estavam diante de uma difícil tarefa: iniciar a “luta armada” e, ao mesmo tempo, modificar o papel social do intelectual revolucionário. Este artigo discutirá este assunto de modo a mostrar a situação dramática na qual muitos homens e mulheres estiveram envolvidos.

PALAVRAS-CHAVE: Ditadura militar brasileira – Luta armada – Intelectuais de esquerda

DOSSIÊ CINEMA - HISTÓRIA

APRESENTAÇÃO DO DOSSIÊ CINEMA-HISTÓRIA: UM SALDO SIGNIFICATIVO

  • Sheila Schvarzman

A PROPAGANDA POLÍTICA DO GOLPE DE 1964 ATRAVÉS DOS DOCUMENTÁRIOS DO IPÊS

  • Marcos Corrêa

RESUMO: Neste artigo, abordamos o documentário “O que é o IPÊS” como um instrumento de
propaganda política do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais – IPÊS, ao Golpe Militar de março de 1964. Representando principalmente os interesses dos setores industriais, o IPÊS utilizou desse e de outros documentários como forma de interferir no processo político que culminou na queda de João Goulart da presidência da república.

PALAVRAS-CHAVE: Propaganda política – IPÊS – Golpe Militar

A REINVENÇÃO DA PALAVRA NECESSÁRIA, UMA APRESENTAÇÃO DO FILME SHOAH DE CLAUDE LANZMANN

  • Luana Chnaiderman de Almeida

RESUMO: Esse artigo pretende apontar, em linhas gerais, quais são os princípios que regem a obra cinematográfica Shoah, de Claude Lanzmann, atentando para o desafio que está sempre presente quando se pretende retratar um passado histórico: aproximar-se dele sem banalizá-lo ou falseá-lo, mas, ao mesmo tempo, mantendo sempre a consciência de que esse retrato é necessariamente diferente do passado em si. Lanzmann procura resolver essa questão centrando seu filme no testemunho, ou seja, na palavra que se reinventa e refaz o passado, (e que é necessária, para que esse passado não se perca) e na filmagem dos lugares onde se deu a catástrofe no presente, “não-lugares da memória”, vazios que se preenchem a partir das lacunas do discurso.

PALAVRAS-CHAVE: Shoah – Testemunho – Representação

DOCUMENTÁRIO BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO E A MICRO-HISTÓRIA

  • Karla Holanda

RESUMO: Este trabalho verifica a tendência de abordagem adotada pelo documentário brasileiro contemporâneo e relaciona-a aos debates ligados à micro-história. Serão identificadas as abordagens empregadas quanto à escala utilizada ao tratar o tema, seja uma escala macro, que caracteriza a abordagem geral, expressa pela representação de tipos sociológicos, compondo uma imagem global e homogênea da experiência social; seja uma escala micro, que caracteriza a abordagem particularizada, quando destacam-se alguns personagens. É essa abordagem particularizada que será relacionada à microhistória.

PALAVRAS-CHAVE: Cinema – Documentário – Micro-história

REBELDES NAS TELAS: UM OLHAR SOBRE FILMES DE RECONSTITUIÇÃO HISTÓRICA DOS ANOS 90

  • Miriam de Souza Rossini

RESUMO: Este trabalho analisa discursos cinematográficos produzidos no Brasil durante os anos 1990, tendo por base a construção de personagens rebeldes nos filmes brasileiros — sejam eles guerrilheiros, bandoleiros, visionários — a fim de perceber o modo como o cinema se apropria, resgata e ressignifica fatos históricos a fim de construir o seu discurso em torno da identidade nacional. O interesse é ver como estes discursos se articulam com o debate em torno da identidade cultural que perpassa os produtos midiáticos, aqui tendo por base o cinema produzido nos anos 1990. Serão analisados três filmes: Lamarca, 1994, de Sérgio Rezende; O que é isso, companheiro?, 1996, de Bruno Barreto, e Tiradentes, 1999, de Oswaldo Caldeira..

PALAVRAS-CHAVE: Identidade – Memória – Narrativa fílmica

ARGILA, OU FALTA UMA ESTRELA... ÉS TU!

  • Ana Pessoa

RESUMO: O artigo apresenta a participação de Carmen Santos como co-produtora e protagonista de Argila, dirigido por Humberto Mauro, e realizado de 1938 a 1940, situando a produção na trajetória pessoal e profissional de Carmen e comentando sua contribuição na construção da personagem feminina.

PALAVRAS-CHAVE: Cinema brasileiro – Estudos de Gênero – Carmem Santos

MÚLTIPLOS OLHARES SOBRE O CINEMA: REFLEXÕES SOBRE “CINEMA BRASILEIRO 1995-2005: ENSAIO SOBRE UMA DÉCADA” POR DANIEL CAETANO

  • Rodrigo de Freitas Costa
  • Eliane Alves Leal
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