Vol. 3 Ano III nº 2 - Abril/ Maio/ Junho de 2006

  • Editorial
  • Entrevista
  • Artigos
  • Dossiê
  • Resenhas

Com o propósito de dar continuidade à construção de um espaço que tem se caracterizado por incentivar a interlocução acadêmica e a divulgação de pesquisas de alto nível a um público amplo, apresentamos mais um número da Fênix – Revista de História e Estudos Culturais (Vol. 3, Ano III, N.º 2 – Abr./Mai./Jun. 2006).

Os leitores e colaboradores, que têm nos acompanhado ao longo desta caminhada, provavelmente já perceberam que a prioridade desta publicação é dar visibilidade às mais diversas vertentes da produção historiográfica brasileira contemporânea, haja vista que se delineiam nas páginas de nossa revista objetos, temas e abordagens multifacetadas, por meio de artigos e ensaios oriundos de diversas regiões do país.

Esta edição, que ora chega ao conhecimento do público leitor, carrega indubitavelmente essa marca. Ademais, como estamos sempre fazendo escolhas, a opção por compor este número evidencia as instigantes maneiras pelas quais a História se relaciona com outros campos de conhecimento como: Pintura, Educação, Literatura, Estética, Cinema e, com uma instância que já faz parte de sua própria constituição, a Teoria. Esta iniciativa contribui para oferecer um retrato, a um só tempo, matizado e atualizado do ofício do historiador.

Inicialmente temos a entrevista com escritor polonês Stanislaw Lem, em excelente tradução de Olga Kempinska. Das obras de Lem, a mais conhecida do grande público é Solaris, sobretudo graças às adaptações cinematográficas de Steven Soderbergh (2002) e Andrei Tarkovski (1972). Por meio desta entrevista – publicada originalmente na Gazeta Wyborcza, em 2000 – o leitor mais atento terá a oportunidade de se defrontar, antes de tudo, com a constante preocupação desse intelectual com o homem contemporâneo, cuja condição, nos diz alegoricamente Lem, lembra a de um “Macaco de Viagem”. O mistério da expressão se desvenda ao cabo da entrevista que abre amplos horizontes, que vão da ficção científica até a religião, passando pelas ciências exatas, epistemologia, sociologia, ética e antropologia.

Acreditamos que essa possibilidade de ampliação de horizontes também se faz presente nos demais trabalhos que compõem este número. Um bom exemplo disso é o artigo de Sandra Jatahy Pesavento, cuja abordagem se orienta pela aproximação entre as idéias de Gilberto Freyre e a obra pictórica de Albert Eckhout. Por meio de uma “feliz coincidência” ou pelo “encontro marcado”, a autora descortina diálogos possíveis entre duas estimulantes formas de pensar o Brasil, com o intuito de mostrar como nossa identidade é complexa e não se deixa apanhar facilmente por esquemas explicativos simplificadores. Num caminho diferente, mas igualmente inquietante, temos o estudo de Fernanda Bouth Pinto a respeito da Educação brasileira no século XIX, com ênfase na criação do Imperial Instituto de Surdos e Mudos – primeira escola para surdos do Rio de Janeiro oitocentista. Nesse artigo, vale destacar, há a recuperação de uma experiência inovadora e que serve de parâmetro até os nossos dias. Por outro lado, temos estudos que evidenciam as múltiplas relações existentes entre História e Literatura. Com efeito, utilizando-se de objetos e caminhos distintos, as análises de Ana Carolina Abiahy e Patrick Pessoa oferecem uma contribuição significativa para o enriquecimento dessa vertente investigativa. Ana Carolina faz uma sensível e, ao mesmo tempo, rigorosa reflexão sobre o conto A Fuga de Clarice Lispector, respaldando-se nas noções de “epopéia negativa” (Theodor Adorno) e “herói problemático” (Georg Lukács). Patrick Pessoa, por sua vez, partindo dos escândalos que envolveram, recentemente, o Partido dos Trabalhadores (PT), retorna em tom provocativo ao clássico Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, com o objetivo de “problematizar as possíveis origens e corolários da melancolia política brasileira”. Fechando este rol de motivadoras pesquisas e reflexões, temos ainda o ensaio de Alcides Freire Ramos. Sem descartar inteiramente as clássicas análises estruturais, que tanto marcaram os estudiosos de cinema e história nas últimas décadas, o autor propõe um caminho diferenciado para construir sua interpretação histórica do filme Terra em Transe (1967, Glauber Rocha), isto é, busca inspiração teórico-metodológica na chamada teoria do efeito estético/estética da recepção (Wolfgang Iser).

Nesta edição, o leitor encontrará ainda um excelente Dossiê de Teoria da História, organizado por Pedro Spinola Pereira Caldas. Composto por trabalhos de Pedro Caldas, Bruno Gianez e Valdei Lopes de Araújo, Sergio da Mata e Giulle Vieira da Mata, Flávia Florentino Varella, Luiz Costa Lima e Estevão de Rezende Martins, esse conjunto de reflexões aqui proposto acaba por demonstrar, como adverte o organizador, que “a teoria não precisa empinar o nariz e se encastelar em conceitos. Pode, e deve, sutilmente, introduzi-los através de experiências vitais”. Por esta razão, no que tange à produção do conhecimento histórico e historiográfico, o diálogo com as instâncias que se organizam em torno das idéias de Crônica, Romance, Retórica, Verdade, etc., além de necessário, é promissor, como o leitor mais atento poderá perceber. As resenhas dos livros A Prática do Novo Historicismo (Catherine Gallagher e Stephen Greenblat) e Um Historiador Fala de Teoria e Metodologia (Ciro Flamarion S. Cardoso), feitas respectivamente por Dolores Puga Alves de Sousa e Christian Alves Martins, completam com brilho o mosaico desta necessária discussão.

Portanto, é com imensa satisfação e orgulho que convidamos nossos leitores a enveredarem pelas páginas do novo número da Fênix – Revista de História e Estudos Culturais. Boa leitura a todos!

Maria Abadia Cardoso
Membro da Secretaria Executiva

A RAZÃO PESSIMISTA: “MACACO DE VIAGEM” – ENTREVISTA DE JACEK ŻAKOWSKI COM STANISLAW LEM

  • Olga Guerizoli-Kempinska

UM ENCONTRO MARCADO – E IMAGINÁRIO – ENTRE GILBERTO FREYRE E ALBERT ECKHOUT

  • Sandra Jatahy Pesavento

RESUMO: Este artigo analisa uma espécie de feliz coincidência ou um encontro marcado, porém imaginário, entre as idéias de Gilberto Freyre e a obra pictórica de Albert Eckhout, com alguns séculos de distância. Este cruzamento só poderia ocorrer através do olhar e das questões formuladas por um historiador que se debruça sobre eles num outro momento histórico, retraçando a descoberta de um outro Brasil, realizada por Freyre.

PALAVRAS-CHAVE: História Cultural – História e Pintura – Gilberto Freyre – Albert Eckhout

O SILENCIOSO DESPERTAR DO MUNDO SURDO BRASILEIRO

  • Fernanda Bouth Pinto

RESUMO: O presente trabalho constitui um estudo a respeito da temática da Educação desenvolvida no Brasil, especificamente na Corte Imperial, em meados do século XIX, décadas de 1850 e 1860. Entendendo o panorama educacional e político deste período, tem como questões principais: o processo de construção do Estado Imperial e da Instrução Pública; o estudo dos preceitos médico-higienistas relacionados aos debates sobre poder e disciplina na educação de surdos e as questões sociopolíticas que envolveram a criação da primeira escola para surdos no Rio de Janeiro oitocentista, o Imperial Instituto dos Surdos Mudos.

PALAVRAS-CHAVE: História da Educação – Surdos – História Institucional

LIVRE NO PENSAMENTO E PRESA NA INAÇÃO: UM ESTUDO DA PROTAGONISTA DE “A FUGA”, CONTO DE CLARICE LISPECTOR

  • Ana Carolina Abiahy

RESUMO: Por meio da análise do conto “A fuga”, escrito por Clarice Lispector, na década de 1940, discutimos a representação literária que a autora faz do papel de uma esposa e dona-de-casa na sociedade brasileira da época. Pela ótica da crítica feminista, percebemos o viés do social nessa narrativa da escritora, que pode ser entendida como possibilidade de debater os impasses de uma parcela de mulheres que ansiavam por mudanças na cultura patriarcal vigente. Nossa análise é balizada por pesquisas da área de gênero sobre o conflito entre a esfera pública e a privada. Para compreender a inação da protagonista, foram elucidativos os conceitos de epopéia negativa, esboçado por Theodor Adorno, e o de herói problemático, de Georg Lukács..

PALAVRAS-CHAVE: Representação – Mulher – Sociedade

CENA DE FAMÍLIA DE ADOLFO AUGUSTO PINTO: RETRATO DA CULTURA BRASILEIRA OITOCENTISTA

  • Patrick Pessoa

RESUMO: Os recentes escândalos envolvendo o Partido dos Trabalhadores (PT), eleito em 2002 como o partido da esperança, abalaram a crença de muitos de seus antigos militantes na possibilidade de uma ação política efetivamente transformadora das desigualdades sociais brasileiras. A obra de Machado de Assis, erroneamente considerado um escritor conservador, aponta alguns caminhos para a superação dessa melancolia que atualmente ameaça a esquerda do país. A partir de uma análise de suas Memórias póstumas de Bras Cubas, o objetivo deste artigo é problematizar as possíveis origens e corolários da melancolia política brasileira.

PALAVRAS-CHAVE: Machado de Assis – Fenomenologia – Roberto Schwarz

TERRA EM TRANSE (1967, GLAUBER ROCHA): ESTÉTICA DA RECEPÇÃO E NOVAS PERSPECTIVAS DE INTERPRETAÇÃO

  • Alcides Freire Ramos

RESUMO: Com base na teoria do efeito estético/estética da recepção (Wolfgang Iser), este artigo discute Terra em transe (1967, Glauber Rocha) e propõe alguns avanços nas discussões acerca da relação história e cinema.

PALAVRAS-CHAVE: História e Cinema Brasileiro – Glauber Rocha – Terra em transe

DOSSIÊ TEORIA DA HISTÓRIA

APRESENTAÇÃO DO DOSSIÊ TEORIA DA HISTÓRIA: A NECESSIDADE DA HISTÓRIA

  • Pedro Spinola Pereira Caldas

A EMERGÊNCIA DO DISCURSO HISTÓRICO NA CRÔNICA DE FERNÃO LOPES

  • Valdei Lopes de Araujo
  • Bruno Gianez

RESUMO: O objeto deste artigo é o estudo do campo discursivo que delimita e insere o conceito de história na crônica de Fernão Lopes (1380/90–1459?). A Crônica de D. João I revela um momento de crise dos valores tradicionais. A escrita da história deve explicar uma realidade distinta da ordem senhorial vigente. Lopes redimensiona o gênero cronístico, instituindo uma voz autoral ancorada em procedimentos de subjetivação. A partir do isolamento de estruturas discursivas tradicionais, Lopes abre um espaço de autonomia para a narrativa histórica, cerceando as formas encomiásticas, o cronista busca recontar as “estorias” ordenando-as numa perspectiva temporal bipartida que possibilite a produção da “nua verdade”.

PALAVRAS-CHAVE: História da historiografia – Fernão Lopes – Crônica

OS IRMÃOS GRIMM ENTRE ROMANTISMO, HISTORICISMO E FOLCLORÍSTICA

  • Sérgio da Mata
  • Giulli Vieira da Mata

RESUMO: O objetivo deste artigo é avaliar a importância de Jacob e Wilhelm Grimm para as ciências humanas e a sua progressiva transformação em “heróis culturais”. Primeiramente os autores situam a obra dos irmãos Grimm no contexto histórico, literário e científico do século XIX. Num segundo momento, discutem a marginalização da folclorística no Brasil e a sua redescoberta pelos historiadores nos últimos anos. Finalmente, é utilizado o instrumental teórico da folclorística a fim de analisar o filme The Brothers Grimm, de Terry Gilliam.

PALAVRAS-CHAVE: Irmãos Grimm – Historicismo alemão – Folclorística

DAVID HUME E JANE AUSTEN: O SENTIMENTO E A CONSTRUÇÃO DA MODERNA ISTORIOGRAFIA INGLESA

  • Flávia Florentino Varella

RESUMO: Neste artigo, discutimos a relação entre historiografia e romance a partir das obras do historiador David Hume e da romancista Jane Austen. Hume produziu um programa historiográfico que avalizava o sentimento como categoria de explicação do movimento histórico e via na identificação do leitor com a narrativa um aspecto fundamental de sua obra. Em sua “History of England”, Hume utilizouse do recurso à sentimentalidade na composição de suas principais personagens femininas. Em diversos momentos de sua obra, Jane Austen parece defender uma concepção moderna de historiografia capaz de incorporar o sentimento, em oposição aos modelos clássicos contra os quais já se erguia o projeto de Hume.

PALAVRAS-CHAVE: Romance – Historiografia – Representação

MONTAIGNE: A HISTÓRIA SEM ORNATOS

  • Luiz Costa Lima

RESUMO: Este ensaio visa precisar a concepção de história privilegiada nos Ensaios de Montaigne e os problemas provocados pelo caráter retórico de uma de suas fontes, a Historia general de las Índias, de López de Gomarra.

PALAVRAS-CHAVE: Retórica – Verdade – Michel de Montaigne – López de Gómarra

HISTÓRIA E TEORIA NA ERA DOS EXTREMOS

  • Estevão de Rezende Martins

RESUMO: São apresentados os extremos a que a teoria da História se viu exposta ao longo do século 20: os extremos excludentes de uma confiança irrestrita, quando não ingênua, nas fontes e do relativismo cético, os extremos da necessidade de modelização e da tentação totalitária da dogmatização, e o extremo do risco de inespecificidade do conhecimento histórico combinado com a ameaça de sua dissolução em outras especialidades. Analisa-se a politização do conhecimento e sua redução funcional aos engajamentos militantes, que constituem um extremo comum no século 20. Propõe-se o denominador comum da metodização como forma de interação das opções teóricas para a produção do conhecimento historiográfico e a abertura comparativa, que vença o extremo da dependência nacional, para a internacionalização do debate historiográfico no século 21.

PALAVRAS-CHAVE: Teoria da História -Historiografia contemporânea – História no século 20 – História nacional -Método comparativo – Conhecimento histórico

HISTÓRIA, AÇÃO E CULTURA: UM ESBOÇO DE COMPARAÇÃO ENTRE HEGEL E NIETZSCHE

  • Pedro Spinola Pereira Caldas

RESUMO: Este artigo pretende estabelecer uma comparação entre dois textos clássicos da filosofia da história, a saber, A Razão na História, de Hegel, e Segunda consideração intempestiva, de Nietzsche. Nesta comparação, pretender-se-á mostrar que algumas críticas de Nietzsche a uma visão hegeliana da história dependiam de elementos já presentes no próprio pensamento hegeliano. Não se trata de estabelecer uma identidade absoluta entre os dois autores, mas sim de, pelo método comparativo, mostrar que a visão teleológica da história pode educar o homem para a vida e para a ação.

PALAVRAS-CHAVE: Filosofia da História – Filosofia alemã – Teleologia – Bildung

DE UM APRENDIZ PARA UM HISTORIADOR: COMENTÁRIOS SOBRE “UM HISTORIADOR FALA DE TEORIA E METODOLOGIA: ENSAIOS” DE CIRO FLAMARION CARDOSO

  • Christian Alves Martins

DIÁLOGOS COM A LITERATURA E AS PARTICULARIDADES: “A PRÁTICA DO NOVO HISTORICISMO” PARA CATHERINE GALLAGHER E STEPHEN GREENBLATT

  • Dolores Puga Alves de Sousa