Vol. 3 Ano III nº 3 - Julho/ Agosto/ Setembro de 2006

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O número que ora vem a público (Volume 3, Ano III, nº 3) da Fênix – Revista de História e Estudos Culturais traz, além de um conteúdo de altíssima qualidade acadêmica e originalidade de investigação, realizações de significativa importância, resultado da forma adotada por este periódico.

A facilidade de acesso a uma revista eletrônica tem demonstrado ser condição “quase ideal” para divulgar pesquisas e conhecer iniciativas do mercado editorial. Ao mesmo tempo, a velocidade na circulação de seu conteúdo tem propiciado a seus editores a agradável surpresa de receber textos tão diversificados, que fazem desta revista um espaço cuja pluralidade jamais lhe tirou a coerência.

Neste sentido, ao exibir a veia filosófica que se insinuava em outros números, encontra-se o artigo de Stefan Gandler, professor da Universidad Autónoma de Ciudad Juárez, no México, que discute com grande argúcia e detalhe as teses de Walter Benjamin sobre o conceito de história. Na seqüência, o leitor terá no erudito texto de Cássio da Silva Fernandes não somente a oportunidade de ler um trabalho sobre Jacob Burckhardt (algo raro no Brasil), mas observar a conexão entre História da arte e história da historiografia.

Na continuidade da Seção Livre, encontraremos três artigos que convergem para estudos de religião – até a presente edição, um tema ainda bastante tímido em nossas páginas. Elza Marinho Lustosa da Costa, Maria Izabel Morais Oliveira e Irma Beatriz A. Kappel, com suas análises, a partir das quais se vislumbram caminhos factíveis para o estudo do sagrado pela história, compõem um conjunto cuja heterogeneidade fornece ao nosso leitor diferentes perspectivas sobre o fenômeno religioso.

Finalizando esta seção, estão os escritos de Fabio Luiz Lopes da Silva e Alcides Freire Ramos. O primeiro é uma criativa reflexão acerca da obra de Gilberto Freyre à luz das teorias de Michel Foucault, enquanto o segundo, por intermédio da interlocução entre história e estética, constrói um diálogo de grande densidade entre o filme Kuhle Wampe (1931-1932, Slatan Dudow) e a República de Weimar.

No espaço destinado às resenhas, a Fênix – Revista de História e Estudos Culturais, com muita satisfação, apresenta os livros de Nádia Maria Weber dos Santos (Histórias de Vidas Ausentes: a tênue fronteira entre a saúde e a doença mental. Passo Fundo: UPF Editora, 2005), de Luiz Costa Lima (História, Ficção, Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2006) e de Maria Lúcia Viveiros de Araújo (Os caminhos das riquezas dos paulistanos na primeira metade dos Oitocentos. São Paulo: HUCITEC/FAPESP, 2006). Respectivamente assinadas por Talitta Tatiane Martins Freitas, Pedro Spinola Pereira Caldas e Maria Cecília Naclério Homem, estas análises não só realizam instigantes considerações como também revelam por seus argumentos a contribuição intelectual de pesquisadores em diferentes estágios de suas carreiras. Da sofisticada erudição de Luiz Costa Lima às consistentes pesquisas de Nádia Weber e Maria Lúcia Viveiros, o leitor terá a oportunidade de tomar contato com importantes pesquisas realizadas em nosso meio acadêmico

Completando o número, temos o dossiê História e Visualidades. Composto por sete artigos, com abordagens singulares, este dossiê reune dois dos mais consagrados pesquisadores da História Cultural no Brasil, Luiz Costa Lima e Sandra Pesavento, ao lado de pesquisadores experientes e de grande talento como Victor Andrade de Melo, Carmem Lúcia Figueiredo e Maria Lucília Viveiros Araújo. Integram ainda o dossiê dois jovens e promissores doutorandos, Mirian Seraphim e Daniel de Souza Leão Vieira.

Mais uma vez, reafirmando a sua proposição em dar visibilidade à produção científica de profissionais em distintos momentos da trajetória intelectual, a Fênix – Revista de História e Estudos Culturais possibilitará ao leitor entrar em contato com instigantes reflexões que, em conjunto, reafirmam este espaço editorial como um exercício efetivo de pluralidade e diálogo interdisciplinar!

Finalmente, mais uma vez, agradecemos o apoio de nossos leitores e pesquisadores que nos brindam com sua confiança, ao encaminharem para Fênix – Revista de História e Estudos Culturais as suas colaborações.

A todos, boa leitura e muito obrigado!

Alcides Freire Ramos, Pedro Spinola Pereira Caldas e Rosangela Patriota
Editores da Fênix – Revista de História e Estudos Culturais

POR QUE O ANJO DA HISTÓRIA OLHA PARA TRÁS? SOBRE O CONCEITO DE HISTÓRIA EM WALTER BENJAMIN

  • Stefan Gandler

RESUMO: O anjo da história, da tese de Walter Benjamin, olha para trás por três razões: Primeiro, porque epistemologicamente é inevitável e necessário olhar para trás, ou seja: o anjo não pode ver à frente e precisa olhar para trás. Ser capaz de entender o seu entorno. Segundo, porque ontologicamente o futuro não existe, pois o “progresso” não é uma tendência para se aproximar de um futuro melhor, mas para se afastar do paraíso perdido; e porque o tempo como algo homogêneo que avança automaticamente, não existe. Terceiro, porque politicamente é necessário olhar para trás, uma vez que não é possível enfrentar o nacional-socialismo se for entendido como um estado de exceção, diametralmente oposto ao progresso inevitável.

PALAVRAS-CHAVE: Progresso (crítica de) – tempo (conceito de) – memória – Walter Benjamín

JACOB BURCKHARDT E A PREPARAÇÃO PARA A CULTURA DO RENASCIMENTO NA ITÁLIA

  • Cássio da Silva Fernandes

RESUMO: O historiador suíço Jacob Burckhardt (1818-1897) é comumente referido como autor do clássico livro, publicado em 1860, A Cultura do Renascimento na Itália. Por meio dessa obra, Burckhardt apresentava uma síntese histórica do período, traduzida na memorável fórmula da “descoberta do homem e do mundo”. O presente trabalho segue o processo de elaboração da obra pelo autor, desde sua primeira viagem a Roma, em 1846, até a composição final do manuscrito.

PALAVRAS-CHAVE: Burckhardt – história da cultura – Renascimento

RITOS E PROCISSÕES: CAPITAL SIMBÓLICO E DOMINAÇÃO NAS IRMANDADES RELIGIOSAS DE SOBRAL NO LIMIAR DO SÉCULO XX

  • Elza Marinho Lustosa da Costa

RESUMO: Este trabalho se propõe a identificar e analisar as funções e as estratégias utilizadas pelas irmandades religiosas de Sobral enquanto formas institucionais da sociabilidade religiosa na consolidação do poder e prestígio das elites na hierarquia social da cidade, no período que vai de 1880 a 1930. É um recorte exemplar de formas de comportamento dominante entre a chamada aristocracia rural do Nordeste no período, onde a religião católica e seu “aparelho” aparecem como elementos fundamentais de socialização, distinção, reprodução e legitimação das elites.

PALAVRAS-CHAVE: História Cultural – Ritos e Procissões – Irmandades Religiosas

VOZES E SENTIDOS NO DISCURSO INSTITUCIONAL LEGAL DO ENSINO RELIGIOSO

  • Irma Beatriz Araújo Kappel

RESUMO: Este estudo fundamenta-se na base teórica da Análise do Discurso de vertente francesa, a partir de uma análise qualitativa. Considerando a presença de outros discursos, além do Discurso Institucional Legal, discutimos o processo de constituição das vozes (polifonia – percebida a partir das marcas de heterogeneidade e dos silêncios) nos enunciados, e dos sentidos (polissemia percebida a partir dos enunciados e paráfrases) na identificação das formações discursivas e ideológicas. Na perspectiva de melhor compreender a construção e os efeitos de sentido pelo objeto discursivo Ensino Religioso, buscamos refletir acerca dos textos institucionais legais tanto na referência ou não a Deus nos Preâmbulos das sete Constituições Brasileiras como na presença ou ausência de artigos específicos acerca da obrigatoriedade ou não do Ensino Religioso nas escolas de Educação Básica.

PALAVRAS-CHAVE: Polifonia – Polissemia – Silêncio

OS COMBATES INTELECTUAIS DE BOSSUET: A UNIDADE POLÍTICA POR MEIO DA UNIDADE RELIGIOSA

  • Maria Izabel B. Morais Oliveira

RESUMO: objetivamos demonstrar que, para Bossuet, em sua Oraison funèbre de Henriette-Marie de France, os reis, ao defenderem a religião estariam, ao mesmo tempo, defendendo o Estado. O seu combate ao protestantismo devia-se ao fato de entender que esta doutrina ameaçava fortemente a monarquia absolutista. Ele luta para empreender a unidade religiosa na França, por conceber que este era um meio imprescindível para se obter a unidade política. A figura simbólica do rei como defensor da fé e da Igreja, tão defendida por Bossuet, era uma das imagens que os reis cristãos tinham de apresentar para reforçar o seu poder, na França, na segunda metade do século XVII.

PALAVRAS-CHAVE: Bossuet – política / religião – França – segunda metade do século XVII

REYRE & FOUCAULT: CASA-GRANDE & SENZALA COMO MICROFÍSICA DO PODER

  • Fábio Lopes da Silva

RESUMO: Adaptável”, “sutil”, móvel”, “plástica”: eis os termos com que o Freyre caracteriza a experiência colonial portuguesa no Brasil. Distorção nostálgica de uma realidade em que a repressão deu sempre o tom? Talvez. Mas não se deve deixar de reconhecer que adaptabilidade, sutileza, mobilidade e plasticidade são precisamente os traços atribuídos por Foucault ao poder — pelo menos, em suas formas mais modernas. Esse é o dado inicial a partir de que pretendo aproximar as obras de Michel Foucault e Gilberto Freyre. Hipótese geral do ensaio: Freyre é, quanto ao dispositivo colonial, uma analista da face polimorfa, capilar e plástica do poder.

PALAVRAS-CHAVE: Sociologia freyriana – Genealogia do poder – Dispositivo colonial no Brasil

BERTOLT BRECHT E O CINEMA ALEMÃO DOS ANOS 1920

  • Alcides Freire Ramos

RESUMO: Este artigo discute o trabalho de Bertolt Brecht no cinema, especialmente em Kuhle Wampe (1931-1932, Slatan Dudow) de modo a salientar o impacto e as dificuldades enfrentadas por suas propostas estéticas e políticas naquela conjuntura.

PALAVRAS-CHAVE: Cinema alemão – Bertolt Brecht – Kuhle Wampe

DOSSIÊ HISTÓRIA E VISUALIDADES

APRESENTAÇÃO DO DOSSIÊ “HISTÓRIA E VISUALIDADES”

  • Alcides Freire Ramos

O NÃO-FIGURATIVO (UM FRAGMENTO)

  • Luiz Costa Lima

RESUMO: Pela comparação de dois quadros, de Kandinsky e Mondrian, o autor procura mostrar a absoluta insuficiência da designação que normalmente engloba os autores, i.e., serem eles abstratos. Mostra-se como se diferenciam pela maneira como se dá a relaçao do sujeito-pintor com a obra produzida; como, em Kandinsky, a obra não se autonomiza de uma intenção autoral, mantendo-se a obra vassala de uma significação antes postulada que alcançada; em Mondrian, ao invés, como o sujeito importa apenas como constituinte de algo que dele se torna independente. A essa diferença de modos de estar o sujeito presente corresponde uma outra: em Kandinsky, a subordinação à intenção significativa corresponde um amálgama de linhas e cores de sentido aleatório ou abstrato, ao passo que, em Mondrian, a autonomia do sujeito provoca um “correlato objetivo” a uma cena do mundo – o abstrato dá lugar à produção de uma cena, correspondente ao que temos chamado de mímesis da produção.

PALAVRAS-CHAVE: Romantismo alemão – Abstracionismo – Sujeito – Mímesis

MEMÓRIA E HISTÓRIA: AS MARCAS DA VIOLÊNCIA

  • Sandra Jatahy Pesavento

RESUMO: A partir de algumas representações visuais da guerra (pinturas e fotografias), a autora analisa os processos de destruição/reconstrução da memória coletiva.

PALAVRAS-CHAVE: Memória – Representações da violência – Guerra – Ruína

A PRESENÇA DO ESPORTE E DO LAZER EM OBRAS DE ARTE: UMA ANÁLISE COMPARADA DE IMPRESSIONISTAS E FUTURISTAS

  • Victor Andrade de Melo

RESUMO: Este estudo objetiva discutir a presença do esporte nas obras de artistas relacionados ao impressionismo e ao futurismo. Se os impressionistas olham com desconfiança para a modernidade que se construía na Paris do século XIX, os futuristas a louvam e a conclamam numa Itália ainda atrasada do ponto de vista cultural. Se impressionistas inovam na representação técnica, futuristas radicalizam essa idéia. Se impressionistas ainda discutem a idéia de uma “arte pela arte” e são ressabiados em relação ao compromisso político de suas obras, para os futuristas esse é um posicionamento claro. Entender o esporte nesses âmbitos parece promissor.

PALAVRAS-CHAVE: História do Esporte – História do Lazer – Arte

SEDUÇÃO DA IMAGEM, DILEMAS DE CULTURA: A POSE

  • Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo

RESUMO: O artigo discute a intersecção de imagens de álbuns de família feitas pela pintura, literatura e fotografia. A partir de textos literários do Romantismo às primeiras décadas do século XX e de imagens do pintor modernista Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), pretende-se refletir sobre a caracterização da pose, típica da fotografia, construída pela literatura e retomada pela pintura, como traço relevante na configuração de brasilidade.

PALAVRAS-CHAVE: Imagem e Cultura Brasileira – Guignard – Lima Barreto

O PAINEL DO FORRO DA CAPELA-MOR DA IGREJA DOS TERCEIROS FRANCISCANOS

  • Maria Lucília Viveiros Araújo

RESUMO: O artigo analisa as imagens que ornamentam o forro da capela-mor da igreja da Ordem Terceira da Penitência de São Francisco da cidade de São Paulo. Abordamos os aspectos socioeconômicos da arte, tais como o status do pintor, suas associações, aprendizado, contratos, mecenato e suas mensagens, assim como propomos uma reflexão acerca das novas propostas da História das imagens e da especificidade do testemunho da arte sacra luso-brasileira.

PALAVRAS-CHAVE: História da arte – História das imagens – método iconográfico

UM NOVO OLHAR SOBRE A OBRA DE ELISEU VISCONTI

  • Mirian Nogueira Seraphim

RESUMO: Alguns críticos apontam, como debilidade na produção de Eliseu Visconti (1866-1944), o fato dela não ser homogênea quanto à forma, como se o artista hesitasse entre diversas “maneiras”. Outros percebem essa característica como qualidade, a busca por uma técnica que melhor condizia com seu temperamento. Um novo olhar sobre sua obra pode mostrar que o pintor brasileiro conseguiu, no entanto, uma homogeneidade quanto ao clima que transpira igualmente dos diversos gêneros que abordou. Este pode ser definido como aquela busca de Goethe, após sua viagem à Itália: a relação verdadeira e saudável entre homem e natureza. Seria uma inspiração direta?

PALAVRAS-CHAVE: Eliseu Visconti – Goethe – Pintura brasileira

PAISAGEM E IMAGINÁRIO: CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS PARA UMA HISTÓRIA CULTURAL DO OLHAR

  • Daniel de Souza Leão Vieira

RESUMO: Este artigo visa discutir alguns pontos levantados pelos vários saberes que enfocam a paisagem a fim de que se constitua um arcabouço teórico que fundamente uma história cultural do olhar. O texto será dividido em dois momentos. No primeiro, o foco da análise será o debate sobre espaço e imagem. O tópico debatido, no final, será a idéia do processo, que vai da percepção à representação e vice-versa, em meio à criação sócio-imaginária.

PALAVRAS-CHAVE: História Cultural – Estudos de Paisagem – Imaginário

ENTRE A LOUCURA E A RAZÃO: HISTÓRIAS AUSENTES RESGATADAS POR NÁDIA WEBER

  • Talitta Tatiane Martins Freitas

A CONSCIÊNCIA HÍBRIDA: “HISTÓRIA. FICÇÃO. LITERATURA.”, DE LUIZ COSTA LIMA

  • Pedro Spinola Pereira Caldas

DESVENDANDO A CIDADE DE SÃO PAULO, NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX

  • Maria Cecília Naclério Homem